Diário de bordo: Grajaú.
Hoje foi daqueles dias que a gente sai de casa com o peito aberto e volta com ele transbordando. Saímos cedo de Campinas com o bonde do Inova Quebrada e fomos direto pro extremo sul de São Paulo, pro Grajaú, pra conhecer o Hub Sankofa.
Chegamos e já fomos recebidos aquele acolhimento que só quem é da quebrada sabe dar. A Bárbara e a mãe dela abriram as portas da casa delas, que também é o Hub, e começou a contar a história da família, o engajamento de décadas na luta dos clubes negros e a manutenção da Cultura negra urbana. Quando ela falou da ancestralidade, do terreiro, de sua avó, do tanto de gente que passou por ali e deixou um pedaço de sonho, eu me senti conectado. Era como se estivessem falando da minha própria vó, da minha mãe, da minha história nos Amarais. Aquele lugar não é só um ponto cultural; é um portal. A gente se viu ali, inteiro.Depois veio a comida: arroz, feijão, frango caipira, farofa, saladas. Comemos, trocando ideia sobre tudo. O ambiente era tão afetivo que parecia festa de família que a gente não sabia que tinha. Teve até sobremesa: pudim caseiro que desmanchava na boca. Eu saí de lá com a barriga cheia e a alma mais cheia ainda.
Andamos pela quebrada com eles e fomos entender o projeto do Parque Linear da Barragem Billings. É impressionante: um pedaço enorme de área verde que está sendo recuperado pela própria comunidade, com trilhas, hortas, espaços de convivência, tudo pensado pra ser público e cuidado por quem mora ali. Eles falaram da importância disso pro clima, pra saúde mental, pro lazer das crianças, pra economia local. Eu só pensava: “A gente precisa disso nos Amarais, urgente”.E o grafite, meu Deus. As ruas do Grajaú são uma galeria a céu aberto. Murais gigantes contando história de luta, de negritude, de homens periféricos, de ocupação do território. Cada parede é um grito de “a gente existe, a gente é potência”. Eu tirei foto de tudo, porque quero levar essa energia pra casa.
O que mais me marcou foi perceber o quanto o Grajaú já entendeu uma coisa que a gente ainda tá engatinhando: a periferia pode (e deve) ser destino turístico. Não o turismo de favela-pobre-coitado, mas o turismo de potência, de cultura viva, de gastronomia raiz, de história que não tá no livro didático. Eles levam grupos, contam suas narrativas, vendem seus produtos, giram a grana dentro da própria comunidade. A personalidade da quebrada vira atração, o local histórico vira ponto de visita, a cultura vira renda e, principalmente, vira orgulho.Eu voltei pra Campinas com isso martelando na cabeça: os Amarais têm tudo pra ser o próximo Grajaú nessa parada. Só falta a gente acreditar que nossa quebrada é digna de ser visitada, contada, vivida por quem vem de fora e que essa circulação de gente e de grana pode mudar o jogo aqui dentro. No Grajaú eu vi o futuro da minha quebrada. E ele é preto, periférico, afetivo, organizado e muito potente.
